Westworld S01E05: O galgo e o gato

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Westworld chegou ao quinto de dez episódios, e perguntas seguem surgindo sobre a instigante série do casal Jonathan Nolan e Lisa Joy. Apesar disso, “Contrapasso” é nada menos que o melhor capítulo da primeira temporada até então, intensificando-se em suspense à medida em que avança na trama, reforça algumas teorias bem difundidas e oferece importantes conflitos existenciais — seja internos, seja em relação ao comportamento do Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins).

Dr. Robert Ford

O cientista, aliás, inicia o episódio numa intrigante conversa com Old Bill (Michael Wincott). O Dr. Ford conta que ele e o irmão, quando crianças, ganharam um velho galgo — um cão de caça que “passa a vida correndo em círculos perseguindo um pedaço de feltro em forma de coelho”. Um dia, seu irmão tirou a coleira do cachorro e soltou-o no parque. A bonita imagem do animal idoso correndo livre, feliz, logo deu lugar ao horror: ao avistar um gato, ele o estraçalhou. Para sua completa confusão diante do bichano morto. Moral da história: após uma vida inteira atrás de um único objetivo, o galgo enfim alcançou-o e não soube o que fazer depois.

O conto do galgo e do gato vai e vem, ao longo do episódio, como metáfora de pelo menos dois personagens. Assim que a sequência termina, vemos um deles: Dolores (Evan Rachel Wood). A ginoide, cujo arquétipo de mocinha faz com que ela viva um mesmo ciclo fechado ao longo de muitos anos, representa perfeitamente a figura do cão de caça que age violentamente quando libertado. A sombria conversa de Dolores com o Dr. Ford deixa muitas questões em aberto, principalmente no que diz respeito à relação entre eles e no que teria levado o cientista a criá-la. Será que ele reinventou uma paixão antiga somente para puni-la e mantê-la aprisionada eternamente?

Quando Robert Ford aperta Dolores, literal e figuradamente, para saber se ela ainda tem contato com o ex-sócio e cocriador de Westworld, Arnold, algumas perguntas são enfim respondidas. Primeiro, fica nítido que o legado de Arnold (a introdução de consciência nos androides e consequente crise no parque, há três décadas) teve participação direta da mocinha. Depois, notamos que ela mente para Ford e conversa com uma voz — Arnold, claro. Por fim, Dolores volta a contrariar a sua natureza ao reagir e matar outros anfitriões. Está justificado o título “Contrapasso”.

William e o Homem de Preto.

O levante de Dolores acontece no arco com William (Jimmi Simpson) e Logan (Ben Barnes). Se antes restava dúvidas, agora está claro que eles desbravam o parque numa época diferente da do Homem de Preto (Ed Harris), mais atual. A maior prova disso é o personagem El Lazo, versão antiga de Lawrence (Clifton Collins Jr.). A grande questão é se vemos, naquela linha do tempo, a origem da pane geral ocorrida há 30 anos em Westworld; e se o Homem de Preto e o cada vez mais violento William seriam a mesma pessoa em tempos distintos. Ainda é possível que não, e a reaparição do personagem Old Bill (apelido referente ao nome William em inglês) torna a dúvida mais interessante.

No entanto, chama muita atenção os questionamentos que ambos fazem aos desenvolvedores de Westworld. Cada vez mais apegado a Dolores, sensível ao dilema moral que envolve a criação de seres com consciência e sua exploração impiedosa naquele Big Brother de horror, William opina de maneira bem expositiva: “Quem criou esse parque mostra que não gosta muito de pessoas”. Nessa mesma linha, o Homem de Preto confronta o Dr. Ford pessoalmente no clímax do episódio, e revela seu objetivo ao buscar o centro do labirinto: o entretenimento hedonista e o dinheiro nunca foram os principais objetivos de Westworld. Ele quer a verdade; que pode muito bem ser encontrada na grande metáfora do galgo.

Little Boy

A expressão pensativa e até comovida do Dr. Ford, ao lembrar e contar a suposta história de sua infância, indicia que ele se identifica com o velho animal e sua meta de uma vida inteira. Esse objetivo, a tal verdade, dialogaria com sua obsessão pelo aperfeiçoamento dos anfitriões e encontraria resposta em outra teoria muito forte: seu desejo de imortalidade. Que poderia ser realizada por transferência de consciência e explicaria sua relação com Little Boy (Oliver Bell) — cuja vestimenta e aparição suspeitíssima numa cena com o Homem de Preto remontam diretamente a uma versão jovem de Robert Ford.

Por essa narrativa intrincada, como sofisticados são o seu apuro técnico, seu crescente tom de suspense e sua dramaturgia, refinada e de atuações excelentes, Westworld se destaca como uma das melhores séries da atualidade. Que instiga, provoca reflexão, força o espectador a ver e rever seus episódios (a fim de destrinchá-los e entendê-los) e gera uma forte expectativa: por mais capítulos como “Contrapasso”; que mostra que, seja galgo ou gato, artificial ou orgânico, todo personagem é dotado de complexidade e uma trajetória trágica.

FONTE: AdoroCinema

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